CASACOR São Paulo 2026: a arquitetura das transições

A cada edição da CASACOR, a pergunta se repete: para onde está caminhando a arquitetura de interiores?

A mostra costuma funcionar como um termômetro das transformações que atravessam o setor, mas o que aparece em 2026 parece menos uma coleção de tendências e mais um ajuste de rota.

Depois de anos marcados por interiores de forte contenção visual, superfícies homogêneas e paletas reduzidas, os projetos voltam a incorporar camadas, contraste e uma convivência mais livre entre materiais, texturas e referências. Curvas reaparecem no mobiliário, peças com história convivem com soluções atuais, linguagens distintas compartilham o mesmo espaço sem a preocupação de pertencer a uma única estética.

Não se trata de uma ruptura. Pelo contrário.

Grande parte do que surge agora recupera valores já conhecidos da arquitetura de interiores: o interesse pela materialidade, pela composição e pela construção de atmosferas mais sensoriais. A diferença está na forma como esses elementos são empregados. Em vez de protagonismos isolados, o que se observa é uma busca por relações mais sutis entre os objetos, os materiais e a experiência de quem ocupa os espaços.

Talvez isso ajude a explicar uma das presenças mais recorrentes da CASACOR São Paulo 2026: o têxtil.

Mais do que acabamento ou recurso decorativo, tecidos, tramas e superfícies têxteis aparecem como instrumentos capazes de transformar a percepção dos ambientes. Delimitam sem bloquear, acolhem sem fechar, criam privacidade sem eliminar a integração. Funcionam como elementos intermediários em uma arquitetura cada vez menos interessada em divisões rígidas e mais voltada à construção de gradações entre modos distintos de ocupar os espaços.

Essa abordagem atravessa diferentes projetos da mostra desenvolvidos com tecidos da Entreposto, entre eles Memórias Costuradas em Uso, de Paulo Azevedo; Espaço Deca, de Dado e Guilherme Castello Branco; Casa Memórias Essenciais, de Felipe Almeida; Suíte do Casal, de Castro Cunha; Loft Carmim, de Paula Neder; Pequena Amazônia – Quarto do Filho, de Marta Calasans; e o Home Office, de Marina Salles.

Mais do que um retorno dos tecidos, a CASACOR São Paulo 2026 sugere o retorno de uma arquitetura interessada em transições. Em vez de separar ou integrar completamente, muitos ambientes procuram negociar limites, criar passagens e construir diferentes níveis de intimidade. Nesse contexto, o têxtil reaparece não apenas como matéria, mas como ferramenta arquitetônica.

Talvez seja menos uma tendência de materiais e mais um reflexo de uma questão contemporânea: como criar espaços capazes de conciliar convivência, privacidade e bem-estar sem recorrer a soluções definitivas. Hoje, as fronteiras entre trabalho, descanso, encontro e recolhimento são cada vez menos definidas. A arquitetura de interiores parece responder da mesma maneira: não por meio de rupturas, mas de transições.

Mônica Barbosa

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