O novo lugar do junco

Junco, rattan, rotim e outras matérias trançadas nunca saíram realmente de cena. Basta olhar para a história do mobiliário. No início do século XX, a técnica Lloyd Loom ajudou a consolidar um tipo de poltrona de trama que atravessaria décadas no imaginário doméstico. Muito depois, Philippe Starck revisitaria esse arquétipo na icônica poltrona Lord Yo, substituindo a trama pelo polipropileno e o gesto artesanal pela produção industrial.

Talvez esteja aí uma das razões para essas matérias permanecerem tão presentes. Em mobiliários, luminárias e objetos, elas sempre foram capazes de introduzir textura, leveza e certa informalidade aos ambientes. Mas, de um tempo para cá, suas novas interpretações têm me chamado especialmente a atenção.

Nas três últimas edições da Milan Design Week, observei esse movimento ficar muito claro. Aquilo que durante décadas esteve associado à varanda, à casa de praia ou a uma ideia mais tropical do morar começou a ocupar o interior da casa de outra maneira. E houve uma mudança ainda mais interessante: o trançado deixou de aparecer apenas como acabamento ou ornamento para participar da própria construção do móvel.

Entre as grandes casas do design italiano – onde luxo também significa pesquisa, matéria e domínio do fazer – esse movimento ganhou força. Os exemplos se multiplicam, como se cada uma quisesse uma trama para chamar de sua. Na Cassina, Philippe Starck criou uma poltrona em rattan e trama manual inspirada na antiga cesta agrícola italiana. Na Minotti, Marcio Kogan faz do wicker parte da própria arquitetura das peças da coleção Elas. São duas leituras de uma mesma percepção: a trama não precisa mais ser coadjuvante.

Mas meu encanto maior acontece quando o presente decide procurar repertório no passado.

Na centenária Bonacina 1889, o luxo ganha outra medida: tempo. É ali que voltam à produção a P3 e a P3S, desenhadas por Tito Agnoli em 1964, agora em colaboração com a GUBI. Talvez seja justamente esse encontro entre permanência e reinvenção que torne essas peças tão atuais.

O junco não está novamente em evidência porque o design esteja com saudade do rústico. Interessa porque oferece algo que a perfeição industrial não entrega da mesma maneira: pequenas irregularidades, transparência, tensão e os sinais de quem fez.

Esse vocabulário nunca foi estranho à Entreposto. Junco, rotim e rattan atravessam há muito tempo o mobiliário e os objetos da casa. O que gosto de perceber agora é como essas peças podem existir sem a antiga timidez dos elementos secundários. Uma cadeira, um carrinho, uma luminária ou uma pequena mesa trançada não precisam apenas completar um ambiente. Pela singularidade da matéria, podem organizá-lo.

E a cor ajuda a desmontar definitivamente qualquer nostalgia. Um rattan vermelho, por exemplo, retira imediatamente a fibra natural do território previsível dos beges e marrons e a coloca em outro registro: mais gráfico, mais afirmativo, mais contemporâneo.

No fundo, talvez seja isso que torne essas peças novamente tão desejáveis. Quanto mais o design alcança precisão, escala e perfeição industrial, mais valor ganha aquilo que preserva pequenas diferenças, marcas do processo e a presença de quem fez.

O trançado guarda uma imperfeição que não é defeito.

É assinatura.

Mônica Barbosa

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